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domingo, 5 de setembro de 2010

Claquete entrevista



Renato Gonzales Wetten Marafon é cinéfilo desde criançinha. Até aí tudo bem. Acontece que ele também é responsável por um dos grandes sites de cinema do país desde criançinha. Esse aspecto curioso e improvável é tomado por Renato e por quem quer que lhe ouça falar sobre o Cinepop, como uma demonstração eloquente e visceral de seu amor pelo cinema. Nessa entrevista exclusiva que ele concede à Claquete, o “veterano” de 24 anos fala sobre as raízes do projeto Cinepop e de suas prioridades como editor de um dos mais conhecidos sites de cinema da internet brasileira. De quebra, palpita sobre um dos principais lançamentos nacionais do ano.



1 – Como surgiu a ideia do Cinepop?
O site surgiu como um hobby divertido, sem qualquer investimento ou verba, apenas muita vontade de construir um material informativo e repassar o amor pelo cinema que sentia. Mas após pouco tempo, o reconhecimento acabou surgindo, e o site começou a passar de hobby para empresa. Comecei com apenas 11 anos. A ideia de montar um site de cinema nasceu de um sonho que eu tinha de me tornar, um dia, um roteirista. Com apenas 12 anos, eu já havia acumulado dois roteiros para adaptar para os cinemas. O sonho de entrar para a indústria cinematográfica acabou não dando certo, afinal, quem iria levar à frente o projeto de uma "criança"? Ninguém. Mas, de um sonho surgiu um novo, e por maiores as dificuldades, consegui montar um site sólido, confiável, que acabou se tornando um dos maiores e mais respeitados sites do Brasil. Após dois anos que o site estava no ar, novas oportunidades surgiram: parceria com portais, uma equipe trabalhando nas informações e estruturas do site, distribuidoras se aliando ao projeto, personalidades elogiando nosso serviço. Hoje o site é composto por seis profissionais da área, que colaboram com as informações e críticas, deixando-o democratizado e tornando os internautas nossa fonte de entusiasmo e suprindo necessidades.



2 – Quando o site surgiu, o conteúdo de cinema ainda não estava tão disseminado e com tão fácil acesso como hoje. No entanto, o Cinepop sempre se pautou por notícias “quentes” e em primeira mão. Como você chegou a essa diretriz? Foi algo pensado ou foi saindo naturalmente?
Quando o site surgiu, a internet ainda estava em seu início. Existiam apenas dois sites de cinema, e nenhum blog. Além de informar nossos usuários sobre todas as notícias, sempre procuramos fontes para conseguir notícias exclusivas e em primeira mão, para que nossos usuários pudessem desfrutar destas informações antes de quaisquer outros na internet. Hoje, procuramos cada vez mais conseguir notícias em primeira mão. É um prazer saber que nosso site é pioneiro no mundo cinematográfico.

Logotipo do site que Renato criou aos 12 anos: um dos mais conhecidos por cinéfilos brasileiros...



3 – O Cinepop tem o foco em notícias rápidas. Há, também, uma preocupação em privilegiar, como entrega o nome, um cinema mais popular. Isso é uma orientação editorial, um mecanismo para atrair leitores ocasionais ou uma contingência orçamentária?
Nenhum deles. Quando surgiu, o site enfocava as produções mais populares e comerciais, pois o acesso às notícias sobre os filmes menos comerciais era bastante difícil. Sem contar que filmes com apelo mais cultural sequer eram lançados nos cinemas nacionais. Hoje, isso é bastante diferente, e o acesso às informações sobre esses filmes é bem mais fácil. Além disso, nos 11 anos de carreira do site, já entendemos o que irá interessar nossos internautas. Então procuramos o máximo de informações possíveis que sabemos que irá agradá-los. Existe até uma relação tênue entre a equipe e os internautas, já que lemos todos os e-mails e buscamos colocar as informações que nos são questionadas.



4- É possível listar o Cinepop como um dos 4 sites de cinema referenciais do país. Não é pouca coisa. A que você atribui essa condição?
É tão gratificante saber que estamos entre os melhores. O Cinepop, em nossa visão, já deixou de ser apenas um site, e se tornou um "filho". E queremos sempre trabalhar para o melhor. Acredito que a dedicação e o amor que temos por ele seja a chave deste sucesso.



5- Quando você se descobriu apaixonado por cinema?
Desde criança. Durante cinco anos, assistia em média quatro filmes por dia. Quando percebi que a locadora não tinha mais títulos para eu assistir, pois havia visto quase todos, decidi começar a escrever sobre eles.


6 – Qual o gênero de filme que você mais gosta? Por quê?
Sou um fã inveterado de filmes de terror. Nos anos 80 e 90, estas produções eram muito bem produzidas e executadas. Mas hoje sei apreciar todos os gêneros. Sou apaixonado por filmes, independente do gênero.


Um dos clássicos de terror dos anos 90, Pânico, é dirigido por Wes Craven - um dos diretores preferidos do editor do Cinepop


7 – Quais são seus diretores preferidos?
Tim Burton, Chris Nolan, Zack Snyder, Quentin Tarantino, Wes Craven, Michael Bay, Pedro Almodóvar, Sean Penn e Fernando Meirelles. Todos eles possuem um estilo único de direção.

8 – Você acha que o Brasil está mais próximo do Oscar? Por quê?
Infelizmente, acredito que não. Precisamos começar a produzir filmes mais inteligentes, e que mostrem a beleza de ser brasileiro e viver nesse belo e livre país. Cidade de Deus foi um grande marco na história do cinema nacional, mas infelizmente deu início a uma série de “filmes favela”, que dão enfoque na violência e pobreza. Porque nos orgulhamos tanto de mostrar os pontos negativos do Brasil no exterior? Temos tanta beleza e cultura para transmitir, tanta sabedoria... Acredito que Chico Xavier abriu portas a novos estilos de filmes, mesmo que religiosos.


9 – Tropa de elite 2 vai ser melhor do que o primeiro?
É muito difícil prever se um filme será bom. Tropa de Elite 2 tem tudo para ser melhor que o primeiro: um orçamento maior, uma história com mais detalhes, mais atores de talento e um José Padilha mais seguro. E este é o problema: sequências pecam pelo excesso. Mesmo assim, apostamos nossa ficha no filme!



10 – O Blu Ray vai pegar?
O Blu-Ray já pegou. Mas, em minha visão, está chegando próximo ao seu auge. Não gostei do formato, pois achei desnecessário seu lançamento quando ainda estávamos nos habituando ao DVD. Vou explicar: tínhamos as clássicas fitas VHS, e nos forçaram a escolher trocá-las pelo DVD por sua melhor qualidade. Mal nos adaptamos ao DVD, e surgiu o Blu Ray, prometendo ainda mais qualidade. Em minha opinião, o formato não passa de caça-níqueis. Acredito que ambos os formatos estão com os dias contato, assim como, infelizmente, as video-locadoras. O futuro é o aluguel de filmes pela internet.

Fernando Meirelles e seu Cidade de Deus são referenciais na opinião de Ranato Marafon




Claquetadas:

Cannes ou Oscar:
Oscar. Glamour.
Pipoca doce ou salgada:
Salgada
Fernando Meirelles ou Walter Sales:
Fernando Meirelles
Cinema europeu ou latino americano:
Cinema Europeu
Jennifer Aniston ou Angelina Jolie:
Angelina Jolie. Diva.
Sylvester Stallone ou Arnold Schwarzenegger:
Arnold Schwarzenegger
Filme dublado ou legendado:
Legendado
Um filme de ação:
Matrix
Uma comédia:
Procurando Nemo
Um drama:
Forrest Gump - O Contador de Histórias ou A Casa de Areia e Névoa
Um terror:
O Massacre da Serra Elétrica
Um policial:
O Poderoso Chefão
Um suspense:
O Sexto Sentido
Melhor Filme do ano até o Momento:
A Origem
Um filme que você pensou que ia gostar e não gostou:
Homem-Aranha 3
Um filme que você pensou que não ia gostar e gostou:
(500) Dias com Ela
Um filme que você mudaria o final:
Romeu e Julieta
Um filme que mudaria o mundo caso o mundo pudesse
ser mudado:
O Dia Depois de Amanhã

domingo, 1 de agosto de 2010

Claquete entrevista


“Hoje posso dizer que sou viciado em cinema!”

Respirar cinema pode ser um eufemismo ou uma metáfora assertiva. No caso de Fernando Império, jornalista paulistano de 28 anos de idade, é uma condição inerente a sua existência. Apaixonado por cinema desde a infância (“O cinema sempre foi um negócio presente na minha vida”), Império descobriu na internet uma forma de dar vazão a essa paixão e ao mesmo tempo abastecê-la. Criou um blog de cinema, o Cinebuteco, em novembro de 2008 da necessidade de se comunicar com o mundo e agora está à frente de um ambicioso projeto, o site Salada de cinema. Nesse bate papo com Claquete, Fernando reparte suas paixões cinéfilas, opina sobre a polêmica detenção do cineasta Roman Polanski e abre quais são os seus blogs de cinema preferidos.


1 – Qual a importância do cinema na tua vida?
O cinema é um negócio que está presente todos os dias na minha vida. O fato de criar um blog temático fortaleceu ainda mais a paixão pelos filmes. Sem falar nos noticiários. Eu adoro acompanhar as novidades que estão vindo. Enfim, cinema é um negocio mágico porque você viaja junto na história e também aprende um monte de coisa legal.

2 – Como foi a evolução dessa relação com o cinema?
O cinema sempre foi um negócio presente na minha vida porque meus pais assistem a muitos filmes, mas o negócio "pegou" pra valer quando eu quis criar um blog. Aí surgiu aquela dúvida: blog de quê? Não pensei duas vezes: "cinema, é claro! " Aí, o que era hobby foi ficando um negócio mais sério porque depois de assistir o filme eu teria que escrever algo sobre ele. E não podia ser qualquer coisa, afinal queria um blog bem feito. Aí, você também como cinéfilo sabe que quanto mais filme se assiste, mais se quer assistir e hoje posso dizer que sou viciado em cinema.

3 – Você é responsável por uma das gratas surpresas do noticiário de cinema na internet, o Salada de cinema, como surgiu a ideia do site? Qual é a proposta e quais são os planos para o curto e o longo prazo?
Obrigado pelo grata surpresa (risos). O Salada de Cinema surgiu de uma ideia conjunta minha que tinha o blog CineButeco com o amigo André Sobreiro que também tinha um blog de cinema (Além da Ficha Técnica). Um dia, numa mesa de bar a gente pensou por que não unir forças? Aí, saiu a ideia de fazer um site. Desse dia até a estreia do Salada foram 6 meses de trabalho. Hoje, estamos no ar com uma equipe muito legal e esperamos crescer como um espaço democrático de cinema, onde se fala sobre todos os tipos de filmes, sem preconceito. Daí o nome Salada de Cinema.

4 – Qual a tua opinião em relação aos blogs de cinema?
Existem muitos blogs bons de cinema. Eu, por exemplo, gosto muito deste espaço aqui, o Claquete Cultural, do CinePipoca Cult, Central de Prêmios e o Galvanismo. São blogs que eu acompanho mesmo porque possuem bons textos e reflexões ótimas dos filmes. Não gosto daqueles blogueiros que se acham superior aos outros porque estão vinculados a um portal maior. Esses não me agradam. Estamos todos ligados a uma paixão em comum, que é o cinema, não tem porque ficar se achando melhor que o outro e infelizmente tem gente assim.

5- No cinema contemporâneo, quem te faz ir no cinema de qualquer jeito? Por quê?
Muita gente me faz ir ao cinema, diretores como Woody Allen, Michel Gondry, Scorsese, Lars Von Trier, Darren Aronosfky, Fernando Meirelles, Walter Salles e atores e atrizes que gosto como Meryl Streep, Kate Winslet, Penélope Cruz, Jim Carrey, Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Clint Eastwood. Enfim são pessoas que eu não deixo passar.


Woody Allen faz Fernando ir ao cinema...



... assim como o ator canadense Jim Carrey



6 – Qual a sua opinião acerca do recente imbróglio envolvendo o cineasta Roman Polanski?
Então, é complicado opinar sobre a vida pessoal do diretor. Ele é culpado, deveria pagar pelo que fez. Agora, independente disso, o Roman Polanski profissional é um grande diretor, um gênio que merece a fama que tem.


Gênio polêmico: Para Fernando Polasnki é gênio, mas isso não o exime de pagar por seus erros...


7- Muitos acreditam que o digital é o futuro do cinema. Muitos cineastas como Michael Mann já abandonaram a película e temos salas de exibição como o Espaço Unibanco e a Reserva cultural que utilizam equipamento digital ao invés das tradicionais cópias em rolo. Qual a sua posição em relação a isso?
Muita gente diz que o digital é a evolução do cinema e ponto final. Eu discordo porque acho que ainda tem muita gente trabalhando de forma tradicional. Minha opinião é que as duas coisas devem coexistir. O digital tem toda aquela qualidade e tal, mas me parece um pouco frio, um negócio mais industrializado, talvez seja só uma impressão, ainda não tenho uma opinião formada... Já os rolos são um pouco mais arcaicos, mas puxa... é o símbolo do cinema! Um negócio mágico aquelas pequenas falhas na telona... um charme que eu gosto muito.


8 – Como você recebe essas mudanças no formato do Oscar, a ascensão do 3D e a dificuldade de financiamento que acometem as produções independentes?
Não sou um cara muito conservador não. Gosto das novidades boas. A ideia da inclusão de maior número de filmes indicados a categoria de Melhor Filme me agradou. Mais filmes indicados, mais pessoas comentam sobre a cerimônia do Oscar e para mim o evento é que nem final de Copa do Mundo, fico na torcida mesmo pelos meus filmes favoritos. Então, resumindo, acho uma boa ideia.
A ascensão do 3D não é algo novo, se formos analisar que já na década de 1950 se tinha o tal efeito, só não foi pra frente porque não agradou ao público daquela época. Eu acho que é uma opção a mais para os telespectadores e as animações, de um modo geral, ficam bem mais divertidas com o 3D. Mas não acho que seja a revolução no cinema, como muitos falam. É apenas mais uma outra forma de ver cinema.
As produções independentes merecem mais atenção, principalmente as brasileiras. Fica muito perigoso quando apenas a indústria consegue produzir filmes. O Cinema Independente é necessário para que possamos ter um olhar diferenciado daquele que é comercial. É algo muito caro e precisa, sim, criar políticas culturais para dar a possibilidade a todo mundo que quer - e saiba - fazer cinema, ter a oportunidade de realizar seu trabalho. Tão importante quanto é criar condições para que mais pessoas consigam ter acesso ao cinema independente, hoje tão restrito aos grandes centros.

9- Por que Alfred Hitchcock nunca ganhou um Oscar?
Porque o Oscar é injusto. Não só com Hitchcock como para muita gente boa. E quer saber? A graça do Oscar está justamente nisso. Se fosse tudo do jeito que a gente gostaria, não seria tão aguardado. Se bem que Hitchcock não ter levado foi uma p*** sacanagem.

10 – Qual é a tua sensação depois de assistir um grande filme?
Tenho uma necessidade de debater o filme depois de assistido, ver a opinião das pessoas, discutir se for preciso. Quando isso não é possível, recorro aos blogs que já postaram críticas sobre o filme.

11 – Quem são seus diretores preferidos? Por quê?
Se tem um que talvez esteja acima de outros, este é Kubrick. Seus filmes são inquietantes. Fazem nó na cabeça e é desses que eu gosto. Todos que vi de Kubrick gostei muito. Da atualidade, gosto de Lars von Trier, mesmo seguindo uma lógica comercial, ele sabe como ninguém fazer filmes com bom enredo e sempre consegue o melhor de seus atores. Woody Allen é fantástico, Robert Marshall gosto muito. Fernando Meirelles é o meu diretor brasileiro favorito.


Claquetadas

DVD ou download?
Se puder, cinema. Sempre. Mas quando não tem como, DVD. Download só se o filme não chegou ao Brasil.

Guerra ao terror ou Avatar?
Avatar, com certeza.

Ava Gardner ou Katharine Hepburn?
Katharine Hepburn. Linda!

Neorealismo italiano ou a nouvelle vague francesa?
nouvelle vague francesa.

Cena de Os incompreendidos, um dos expoentes da Nouvelle vague


Cinema japonês ou cinema chinês?
Os dois.

Oscar ou Cannes?
Que dúvida... Oscar.

Angelina Jolie ou Scarlett Johansson?
Angelina Jolie, ainda que... (Risos)

Ingmar Bergman ou Michelangelo Antonioni?
Ingmar Bergman, gosto muito.

Woody Allen ou Pedro Almodóvar?
Woody Allen. Não sou muito fã de Almodóvar.

Um filme de ação:
Indiana Jones. Por que não?

Um romance:
A Dama e o Vagabundo

Uma comédia:
Pequena Miss Sunshine

Um suspense:
O Iluminado

Um drama:
Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças

Um filme que você achou que não ia gostar e gostou:
Tudo pode dar certo

Um filme que você achou que ia gostar e não gostou:
Nine

Um filme superestimado:
Guerra ao Terror e O curioso Caso de Benjamin Button

Um filme subestimado:
Foi apenas Um Sonho

Um filme para se apaixonar pelo cinema:
Cinema Paradiso. Clichê?

Qual filme poderia mudar o mundo se o mundo pudesse ser mudado?
O fabuloso destino de Amèlie Poulain. O mundo seria bem melhor com ela.

domingo, 11 de julho de 2010

Claquete Entrevista


“Já nasci com o DNA do cinema”


Cristiane Costa esbanja conteúdo, versatilidade e generosidade. Cinéfila declarada, ela mantém um dos mais charmosos e inteligentes blogs de cinema da atualidade, o imprescindível Madame Lumière. Cris é a entrevistada do primeiro Claquete Entrevista, coluna mensal que abrirá espaço para cinéfilos, críticos e demais envolvidos com essa paixão maior que a vida que é o cinema.
Nesse gostoso bate papo com Claquete, Cristiane elenca alguns filmes de sua vida, discute a função da crítica de cinema, analisa o advento de novas mídias e tecnologias, relaciona os principais cineastas de sua geração, diz quais foram os melhores filmes do ano passado e ainda abre para gente algumas de suas preferências cinéfilas.


1- Desde quando você se considera cinéfila?
Já nasci com o DNA do Cinema, acredito que é uma herança que já está no meu sangue, no meu eu, no entanto se for precisar um período, me considero cinéfila desde minha adolescência. Naquela época eu já tinha comportamentos que demonstravam meu amor pelo cinema e que, na maturidade, seriam mais intensos, mais profundos. Assistir 5 filmes em um único dia, ir a uma sessão de Cinema atrás da outra e estabelecer relações entre o Cinema e outros campos do saber tornou-se recorrente na minha vida. O engraçado é que meu pai me proibiu um bom tempo de ir ao Cinema e só fui à uma sessão a por volta dos 18 anos, então eu assistia vários filmes na tv aberta e, quando comecei a trabalhar e ter meu próprio dinheiro, alugava os que eu sempre quis assistir e nunca tinha tido a oportunidade de fazê-lo de forma mais independente.


2- Qual é, precisamente, a tua relação com o cinema?
Minha relação com o cinema tem a ver com uma paixão e curiosidade naturais que simplesmente eu deixei aflorar no decorrer dos anos, mas definitivamente é uma relação em construção porque é um relacionamento com a sétima arte que por si só é um campo aberto, ilimitado, e um grandioso laboratório para entendimento de mim mesma e das relações humanas, Acima de tudo, é o meu ato de entrega porque, quando eu me entrego ao cinema, eu abro meu coração para histórias que me emocionam, que podem ser um reflexo da minha vida, que podem revelar valiosas descobertas, que podem catalisar mudanças.

3- Como surgiu a ideia de fazer um blog?
O Madame Lumière surgiu espontaneamente, por pura inspiração que me moveu a uma apaixonada ação, o de explorar esta magnífica seara. Não houve um planejamento mesmo com minha familiarização com o cinema, as letras, o webjornalismo, mas desde o começo, eu queria que fosse um espaço intimista e diferenciado que refletisse quem eu sou, como eu comunico minhas paixões e meu conhecimento. Ele surgiu muito mais como um desejo de falar o que eu sentia sobre o cinema e todas as experiências relacionadas a ele. Compartilhar tais emoções e percepções com pessoas, fazê-las se apaixonar pelo Cinema e compreender os sentimentos do mundo através da tela grande são as minhas bases como escritora e, a meu ver, são as bases de um cinema que comunica o que somos, por isso o blog tem uma perspectiva de ordem comportamental, humanista. É uma experiência puramente pessoal com uma linguagem muito própria e que não deixa de lado a base contextual do cinema, não deixa de abraçar o coletivo.


4- Qual a sua cinematografia preferida? Por quê?
Sou bem eclética, então é bastante variável porque há diversos trabalhos ora esteticamente primorosos, ora emocionalmente marcantes, ora ambos e minha cinematografia preferida ainda é bem pulverizada, de Victor Fleming, passando por Fritz Lang e Sam Mendes até comédias românticas de Nancy Meyers. Mas vamos lá: Conceitualmente, gosto muito do cinema europeu de François Truffaut e Luis Buñuel, da fase expressionista/ realista alemã na década de 20, do cínico e sensual americano noir da década de 40 e da geração Hollywood anos 70/80 (Coppola, Spielberg, Scorsese). Dentre estes, aprecio filmes que romperam barreiras tradicionais de pensamento, que foram divisores de águas e são exemplos de impetuosidade cinematográfica. No geral considerando o número de filmes admirados, minha cinematografia preferida ainda está muito relacionada a Pedro Almodóvar, Martin Scorsese, Woody Allen, Quentin Tarantino, Alfred Hitchcock, Joel e Ethan Coen, Tim Burton, Juan Jose Campanella, Carlos Saura e Clint Eastwood que sabem colocar a câmera para emocionar e que são únicos no que fazem a ponto de serem também autorais: Almodóvar e o colorido desejo, Scorsese e a precisão cinematográfica, Allen e a autêntica neurose da modernidade, Tarantino e a abordagem cult e pop, Hitchcock e o terror humor, Os Coen e seu negro sarcasmo, Tim Burton e a lúdica estética, Juan José Campanella e sua universal latinidade, Carlos Saura e a flamenca paixão, e Eastwood e a contemporaneidade humanista.


Cineastas referenciais: 1- Christopher Nolan, 2- Pedro Almodóvar e Quentin Tarantino, 3 - Sofia Coppola, 4 - Tim Burton e 5 - Juan José Campanella


5 – Em relação ao cinema nacional, qual a sua posição?
Penso que o cinema nacional desenvolveu-se bastante nos últimos anos com a notoriedade de trabalhos bem realizados por ótimos cineastas brasileiros como Fernando Meirelles, Walter Salles, Sandra Werneck, Laís Bodanzy, Guel Arraes, Hector Babenco, entre outros. Isso é motivo de orgulho para nós brasileiros. O público começou a assistir mais estes trabalhos com os incentivos culturais e propagandistas, acreditando no cinema nacional, porém, ainda penso que faltam investimentos massivos na indústria de cinema nacional e faltam oportunidades bem abertas de carreira neste segmento. É necessário também abrir o leque para trabalhos criativos de outros diretores talentosos que não sejam, por exemplo, uma extensão da rede Globo como o trabalho de Daniel Filho que faturou nas bilheterias com sucessos como Se eu fosse você 1 e 2 e Chico Xavier. Não estou criticando o trabalho dele, o qual também respeito, e nem criticando o apoio financeiro da Globo, porém temos que andar por pernas próprias que alcancem o nível de excelência global em filmes estrangeiros, como o do cinema argentino de Juan José Campanella, o alemão de Michael Haneke. Também acho que tem que parar de fazer o cinema 'favela' como se o Brasil só tivesse isso para dizer ao mundo. Entendo que é uma vertente da violenta realidade social do nosso país, mas incomoda-me o fato de usarem muito deste argumento em vários filmes nacionais sendo que o Cinema deveria ser palco das existenciais problemáticas humanas. Temos muita gente talentosa para fazer isso, basta aumentar o patrocínio, entregar roteiros diferenciados nas mãos de diretores competentes.


6 – Quais são os grandes diretores da sua geração?
Sou jovem, então citar os diretores da minha geração seria mais difícil. Dos mais jovens, com um trabalho formidável e um potencial de crescimento espetacular estão Jason Reitman, Christopher Nolan, Sofia Coppola, Spike Jonze e Laís Bodanzy.

7 – Qual foi o grande filme da década passada? Por quê?
Gostaria de citar 2 filmes, incluindo excepcionalmente um de 1999. Beleza Americana (de Sam Mendes) é beleza cinematográfica pura, do roteiro à direção, do humor ao drama, do elenco às entrelinhas. É um grande filme porque é um filme que desmascara de forma realista e, com uma sarcástica melancolia, a fútil aparência da sociedade contemporânea.
Em 2006, Ang Lee nos trouxe o primor de uma história de amor entre 2 homens em O Segredo de Brockback Mountain. Não é somente o drama de uma relação amorosa homossexual, mas é o drama de uma história de amor universal, um romance verdadeiro. A forma sensível e não estereotipada como foi filmado, o brilhantismo de Jake Gyllenhaal e do saudoso Heath Leger tornam o filme grandioso e inesquecível.

Beleza americana: Tão bom que cavou uma vaga na década seguinte...




8 – Qual foi o grande filme do ano passado? Por quê?
Eu ficaria com 2 grandes filmes do ano passado, nesta ordem de preferência: Bastardos Inglórios de Quentin Tarantino, pelo roteiro preciso e a direção eficaz em reconstruir um momento da história do Nazismo e rir vingativamente de tudo isso, e Amor sem Escalas de Jason Reitman, também pelo roteiro contemporâneo e a direção objetiva e não menos sensível que trouxe um elemento existencial (e corporativo) importante: a angústia do desemprego em um período de crise global.
Pôster promocional de Bastardos inglórios: o melhor de 2009



George Clooney e Vera Farmiga em cena de Amor sem escalas: um filme que trouxe um "elemento existencial"





9 – Há quem acredite no potencial terapêutico do cinema. Você concorda com a ideia de que o cinema pode desempenhar outros papéis além do entretenimento? Por quê?
Totalmente. Como disse anteriormente, o cinema é um grandioso laboratório para entendimento das relações humanas e tem um efeito mimético que espelha muito do que o ser humano é e como ele se sente, logo ele se torna uma grande experiência catártica, de libertação, de cura. Basta entregar-se a cada filme, deixar com que ele se conecte com sua mente e alma, e não há como escapar, Cinema é a melhor terapia do mundo, certamente, ele trará um melhor autoconhecimento e o conhecimento do outro e ainda te fará uma pessoa mais feliz.


10 – Você acredita que o advento de novas tecnologias (como o 3D e o perfomance capture) e de novas mídias (como o Blu- ray e os downloads digitais) possam promover mudanças significativas no cinema?
Não há dúvidas de que as mudanças acontecem com o advento de qualquer tecnologia porque estúdios e distribuidoras movimentam o mercado baseados também no que é tendência de consumo em cinema. Novos discursos, novas campanhas de marketing, novos preços já estão por aí. Já estamos testemunhando tal mudança, a começar a filmagem de filmes em 3 D e/ou convertidos em 3 D, desprendendo tempo, capital e conhecimento para manobrar o mercado e vender modernidade no cinema. Com o advento da pirataria descontrolada, Blu-Ray e downloads digitais se tornaram necessários mas também é preciso pensar na democratização da cultura cinematográfica e na acessibilidade da sétima arte a quem deseja cinema mas não tem conhecimento e nem dinheiro para acessar as novas mídias, então prefiro enxergar tais mudanças como uma forma de oferecer ao público uma experiência cinematográfica mais realista, mais vivaz. Não acho que elas trarão mudanças muito significativas, mas trarão um movimento do mercado em competir e conquistar o consumidor, só espero que não se esqueçam da qualidade do filme em seus elementos intrísecos como roteiro, direção, elenco, etc... isso independente de tecnologia.

11 – Qual foi ou é o melhor período para ser cinéfilo?
Não vivi as décadas de 70 e 80 em termos 'presenciais', porém é uma das melhores épocas do cinema, um ilustre período de grandes filmes como O poderoso chefão, Taxi Driver, O último tango em Paris, Blade Runner, etc. Eu queria ter vivido esta época, preferencialmente, estar em Hollywood, ser amiga íntima de Martin Scorsese (risos). Era tempo de revolução, com o talento criativamente rebelde de diretores em ascensão do porte de Scorsese, Altman, Coppola, Lucas, Spielberg e a nova ordem do cinema que refletia muito da contemporaneidade habitual: sexo, drogas, violência, ficção, ação. Era também um tempo de libertação do erotismo. Tempo de ser um fora da lei. Tempo de ir ao espaço. Tempo de ser autêntico e nada caricato. Não há como não reverenciar as obras destas décadas e o trabalho destes diretores, titãs do Cinema.

12 – Quais são os melhores críticos de cinema na sua avaliação e por quê?
Esta é uma pergunta difícil porque acho a crítica de cinema deficiente e homogênea demais, inclusive são poucos os bons críticos no Brasil que conseguem reunir paixão, expertise, contexto, profundidade, espontaneidade, imparcialidade e, principalmente, proximidade com o leitor, fugindo da dicotomia gostei-não gostei.
Não é fácil ser crítico, não importa qual o segmento, porque implica apontar virtudes e desvirtudes de uma obra/produto, e a depender do veículo de comunicação para o qual se trabalha e das relações humanas que se tem, sua liberdade de expressão pode ser afetada, sua crítica também. Infelizmente esta é uma realidade porque avaliar um blockbuster ruim após ter sido convidado pela distribuidora para a première é bem delicado. No mais, alguns bons críticos escrevem para jornais, fazem textos mais profundos sobre determinado aspecto do cinema e, o Brasileiro tem um baixo índice de leitura, quase não compram jornais e, poucos têm paciência de ler textos mais elaborados, inclusive até mesmo a internet educou o ser humano a ler conteúdos pasteurizados, superficiais, facilmente digeríveis. Além disso, o problema não é só da crítica, é mais geral e complexo. Para formar novos e bons críticos para novos e bons leitores, falta acesso à educação em cinema e ao diálogo metalinguístico que ela estabelece com vários conhecimentos, falta o público educar melhor o olhar para o bom cinema e não ceder somente a massificação de filmes sem qualquer conteúdo, falta o mercado de trabalho oferecer mais vagas para profissionais de cinema, inclusive os jornalistas nesta área, falta o mercado editorial parar de vender propagandas de blockbusters que lotam as raras revistas do segmento e invetir mais no conteúdo para uma educação cinematográfica. Dos que acompanho e que posso citar estão Inácio Araújo, Cássio Starling, Ricardo Calil, Isabela Boscov e Ana Maria Bahiana, porém ainda não encontrei o meu crítico ideal de cinema, prefiro ser eu mesma, por enquanto, a minha própria crítica de cinema e também visitar alguns blogs de cinema que, a meu ver, expressam uma opinião mais sincera sobre o filme e tem demonstrando um grande esforço em valorizar a arte cinematográfica, educando a blogosfera na disseminação da cultura e na formação de opinião.


13 - Qual é o papel da crítica de cinema na sua opinião?
O papel da crítica de cinema é explorar a linguagem cinematográfica com embasamento teórico e contextual e indicar ao seu leitor os melhores caminhos que colaborem para uma experiência mais intensa e profunda com o filme, desta forma, aguçando o olhar do leitor, abrindo sua mente para a apreciação do paladar visual, a sensibilidade das linguagens, a emoção da história e como tudo isso pode ser útil a cada existência. Gosto de pensar na crítica de cinema como “alavancadora” de novos pensamentos e questionamentos a partir de uma obra de arte, gosto de pensar na crítica que faz com que o público pense e encontre respostas a perguntas e perguntas a respostas. Penso exatamente como o cineasta Alejando Amenábar, " Meu cinema não é um cinema de respostas e sim de perguntas". Assim deve ser o papel de crítica.



14 – Quais filmes você elencaria como os mais importantes para você hoje? Por quê?
Os mais importantes ainda são aqueles que falam comigo profundamente e que marcaram momentos de minha história cinéfila de uma forma muito intimista, pessoal; não necessariamente são os que acho os melhores na minha cinematografia preferida. Elencaria alguns como E o Vento Levou, O poderoso chefão, O Fabuloso destino de Amèlie Poulain, Pequena Miss Sunshine, Fale com Ela, Beleza Americana, Moulin Rouge, Adeus Lênin, O Filho da Noiva, Titanic, a trilogia do Senhor dos Anéis e a de Toy Story, Closer, Brilho eterno de uma mente sem lembranças, entre outros.



Filmes de uma vida: 1-Closer, 2- O fabuloso destino de Amèlie Poulain, 3- Moulin rouge, 4 -Adeus Lênin e 5- Pequena miss sunshine



15 – Qual filme você recomendaria para alguém que quer se apaixonar por cinema?
Se fosse para indicar somente um filme : Crepúsculo dos deuses, que já tem a sua excelência em falar de Cinema e é uma obra prima. Porém seria injusto citar somente um(risos). E o vento levou, Casablanca, A Felicidade não se compra, Cinema Paradiso... são belos e apaixonantes.
E se quer se apaixonar mais? Renda-se ao primor de O poderoso chefão.

Pôster de Crepúsculo dos Deuses: Para se apaixonar pelo cinema...


Claquetadas:
Qual filme você acha que poderia mudar o mundo se o mundo pudesse ser mudado?
A Felicidade não se compra

Oscar ou Cannes?
Oscar, com melhorias.


Tarantino ou irmãos Coen?
Tarantino na direção e irmãos Coen no roteiro.

Pipoca doce ou salgada?
Salgada, com um fio de azeite

Um filme romântico:
Diário de uma paixão

Um filme de ação:
Os sete samurais

Uma comédia:
Aconteceu naquela noite

Um drama:
Beleza americana

Um suspense:
Um corpo que cai

Um terror:
O bebê de rosemary

Um filme que você mudaria o final:
E o vento levou

Um filme que você pensou que ia gostar e não gostou:
Império dos sentidos

Um filme que você pensou que não ia gostar e gostou:
Sangue Negro

Humphrey Bogart ou Gary Grant?
Cary Grant...always

Tom Cruise ou Brad Pitt?
Hmmm, que difícil! Tom Cruise, pelo conjunto da obra.

George Clooney ou Javier Bardem?
Javier Bardem, sempre!

5 diretores da sua vida:
Martin Scorsese
Pedro Almodóvar
Woody Allen
Clint Eastwood
Juan Jose Campanella

Se sua vida desse um filme, qual seria o título?
Pétalas e espinhos