Transformando o erro em acerto
Começou na última semana a turnê de Charlie Sheen pelos EUA com o show “My violent torpedo of truth”. Sheen, como é público e notório, se engajou em uma espiral de polêmicas e ignorâncias nas últimas semanas. Os episódios, além de renderem notícias diárias sobre as “crises” do ator, ocasionaram sua demissão do programa de maior sucesso da tv americana, "Two and a half men". Renderam também, em um movimento de marketing mais comum em Hollywood do que se pode imaginar, esse show, que terá 22 apresentações. Sheen, que ganhava o maior salário da tv (cerca de U$ 1, 5 milhão por episódio) esgotou os ingressos para as apresentações em horas. Um feito e tanto. Ele conta detalhes de bastidores de sua vida pessoal (regada a bebidas e atrizes pornôs) e das gravações de "Two and a Half men". Esses picantes detalhes vêm entremeados por piadas de gosto duvidoso e auto bajulação.
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| Sheen na primeira apresentação em Detroit: vaias |
Mas Sheen sabe se promover ao gosto de um público sedento por esse tipo de promoção. Hollywood, como demonstra a história, adora consternações públicas e notórias. Escândalos são os combustíveis mais florescentes dessa indústria secular. O que mais chama a atenção no caso de Sheen não é nem mesmo a glamourização de picardias e insolências, mas a capacidade bidimensional (do público e de Sheen) de transformar um grave desvio de moral em acerto estratégico de carreira. Sheen não foi o primeiro a fazê-lo e nem será o último. Robert Downey Jr. é um membro emérito dessa causa. Mas o ator, diferentemente de Mickey Rourke, não se valeu de seus desvios para voltar ao topo. Rourke foi consagrado como intérprete ao viver um personagem nos cinemas (no filme O lutador) que guardava muitas semelhanças com sua trajetória pessoal. Houve quem se sensibilizasse com o ator. Houve quem resistisse a isso. Rourke, além de arrependido, teve quase duas décadas entre seu declínio e ascensão (ainda que a ascensão não tenha sido tão vistosa quanto o declínio). Com Sheen esse hiato nem sequer existiu. Empolgado, o ator faz o que bem entende. Dia desses, recebeu U$ 100 mil por um tweet.
A reinvenção de Charles Sheen logo precisará ser reinventada. Qualquer coisa, outro Charlie, o roteirista Charlie Kaufman tem a solução. O mais genial e irascível roteirista de Hollywood na atualidade descolou uma indicação ao Oscar de uma crise criativa. Impedido, devido a um total bloqueio, de adaptar um livro para o qual foi contratado, escreveu um roteiro sobre a crise que vivenciava. Se inseriu como personagem na trama, se promoveu como nenhum outro roteirista jamais havia feito e entregou a adaptação para a qual foi contratado. O nome do filme? Adaptação. That´s Hollywood baby!
Nicolas Cage é Charlie Kaufman em Adaptação: em Hollywood, original é não ser original...


